quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Metapoema

Esse poema é um suspiro
Um desespero, a solidão dividida
É um corte fundo
Um desabafo, uma memória partida

Esse poema é o âmago,
O mundo despencando, concentração de agonia
É a mágoa acumulada
O não ter pra onde ir numa noite fria

Esse poema são lágrimas não choradas
É o miolo da couraça em formas simplificadas

Cesariano

"Até tu, Brutus, meu filho"


Honra despida
Orgulho assassino
Vergonha foragida
Ódio divino

Mérito? Que mérito?
Diga-me, cobra mascarada!
O justificável inquérito
Precedido da facada

Conseguiste o que querias?
E agora me olhas com desgosto?
Aproveitaste o que podias?
Obrigada pela pegada no rosto

Genial! Ou não... (6ª edição)

Olá, meus caros!
Ao contrário de todos, resolvi postar dois textos hoje. Perdoem-me pelo excesso de sentimentalismo da semana, prometo que volto à minha métrica assim que possível =).

Enfim, hoje tive uma experiência e tanto ouvindo músicos de verdade tocarem. E no meio do meu êxtase musical, Wave a piano e flauta, me perguntei como as pessoas que passavam podiam ignorar algo tão belo, que só tomaria uma parcela de suas preciosas rotinas. Como resistiam ao encanto do fauno? Como não estavam prontos para serem servos daqueles semi-deuses? Como negligenciavam a música divina?
A dúvida durou pouco, já que o improviso do piano chegara, trazendo toda sua jinga brasileira, num solo de pura inspiração, daqueles que se fecha os olhos e se sente os dedos correndo pelas teclas por vontade própria. Em compensação, voltou agora, mais intensa. Será que a ocupação de andar sem rumo pelo shopping prevalece a tal espetáculo? Será que a mente dessas pessoas não sente a magia daqueles sons?
A única conclusão que chego, e acredito que chegarei eternamente, é a falta de interesse, a falta de "tempo", que se resumem numa falta de Carpe Diem

Recomendações: O CD "Birds of Fire", da Mahavishnu Orchestra. Com sua melhor formação, uma das grandes representantes do Fusion inaugura seu estilo próprio, cuja única palavra que associo é gauche – não se encaixa em nada que ouviste antes.

Até quinta que vem!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Além dos ventos

De um fundo azul e bordas marcadas
em duas órbitas cheias de sonhos
transbordando sóis em manhãs douradas
seus olhos emitem o brilho
de uma estrela sozinha

Através do universo,
sinto seus passos na areia
Sei que andas em direção a mim
Sei que pensas em mim
e que devora cada vã palavra

Ao olhar pela janela e sentir o abismo,
pode jogar-se pois sabe que estarei lá
Serei o fim do caminho,
um súbita conclusão,
o chão macio
além dos ventos da queda

Alice Caymmi

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"De contemptu mundi"

Foto: Lucas O. Mourão( Dia chuvoso de novembro)


“De contemptu mundi”

Os tempos são outros, os sorrisos os mesmos
Nos rostos das crianças que caminham pelo bairro
-Eu envelheci,
-Todos nós...
Mas tantos outros nasceram, apesar dos que se foram
A pobreza é a mesma:
Os meninos de rua cresceram,
Mas as barrigas não pararam de parir
De modo que, após tanto tempo
Esses miseráveis na verdade ainda são os mesmos
Direita, esquerda,direita, esquerda
Os governos mudam,
A burocracia, sempre a especialidade da casa
Até as velhinhas que caminham nas praças aos domingos,
Parecem ser as mesmas!
Uma reforma aqui, outra ali, mais uns barracos na favela, mais uns terrenos ilegais nas mansões...
Mas a cidade ainda é a mesma
Depois de tanto tempo...tantas preocupações, alegrias e desgraças
É como se tudo acontecesse ainda pela primeira vez
Em cada vida uma história
Quase sempre aprisionada,muda até seu fim...
Como se a razão de existir fosse dar fim à desgraça da vida...
Talvez as coisas ainda sejam as mesmas na sua essência
Já que o homem ainda é espécie dominante
Num Mundo tão vasto, tantas histórias,
Tão pobres memórias...
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Lucas O. Mourão

Tempestade em Copo D'água

Benção, Afrodite de nós, mortais!
Pausa o mundo apenas com um piscar
Num segundo, a mente atingiu o jamais
Não quero, não posso, não devo contar

Ironia de todos os verões
Relinche, brabo, centauro orgulhoso
Corra, bem veloz pelas estações
E mantenha-se assim, bicho teimoso

De fascínio, tornaram-se rocha
O cintilar verde é hipnotizante
Sorris, e das estátuas debocha

Do triste sonho, vejo-me acordar
Santo pensamento cicatrizante!
Enfim, uma flor para desabrochar
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O terceiro soneto, que batizei alternativamente de "Homenagem exacerbada", mas achei o título atual mais apropriado.

Prisão

O mundo parou nessa sala dura
O céu foi reconstruído em pedra escura
Crispo as mãos no ferro, em revolta
Suspiro da esperança sem escolta

A gota eterna não traz o sono
Sanidade dá o sinal do abandono
Escorre cruel nas temporâs frias
Universo confinado em vistas vazias

Anseiada liberdade, jamais!
Liberdade, somente o vento traz!
Vento? O que seria um vento?
Uma palavra apagada num momento

Grilhões cruéis, correntes malditas
Oh, a dor de punições infinitas!
No mundo de sombras, degradarei
Consciente da amargura que causei

Genial! Ou não... (5ª edição)

Olá, meus caros!
Minha humilde coluninha semanal diminui em P.G. nas férias por causa do meu eterno pecado capital – queria pedir desculpas por isso. Queria também apontar que o Hipóbole, durante nossas férias, funcionará como postagem semi-livre, só voltando ao seu funcionamento normal em Março de 2008, quando voltaremos todos às nossas rotinas (ou teremos rotinas novas, como é o caso da maioria). Postagem semi-livre significa que o colunista pode postar fora do dia ou não postar, mas nada de postar mais vezes na semana (como se isso fosse realmente acontecer =P).
Aliás, extremamente IMPORTANTE: ontem foi o aniversário da nossa literata de plantão – alguém lembrou de envergonhá-la bastante? Obviamente, minha reflexão semanal (inútil) será sobre isso.

Acho que a Ingrid nunca teve muito jeito – é um caso perdido desde que a conheci. Aliás, na verdade, a melhor definição pra ela é: um bicho estranho, que se alimenta de livros – e como come! – e pó de garaná com medicina. É uma garota orgulhosa, daquelas que teima, bufa, bate o pé quando acha que tem que; fala português corretíssimo, inclusive pronunciando bem o duplo r e vogais inúteis, como o U de louca; vicia todo mundo em Drummond; escreve divinamente – não que isso seja novidade.
Ingrid pode ser comparada a um porco-espinho de vez em quando – na verdade, quase sempre. Ela tem essa armadura permanente, um disfarce bem eficiente pros sentimentos, mas mostra a sua nobreza inabalável quando é preciso e o coração enorme. Acho que sempre contarei essa história quando for falar o quanto gosto dela, mas foi a garota que cruzou a chuva torrencial no sábado do meu aniversário, demorando 2 horas para chegar no local. Sou um tanto blaze perante a tudo, mas isso me comoveu de tal forma que grudou no meu coração. Do lado dessa garota.
Ingrid, espero tudo de melhor pra ti, com a maior sinceridade. Espero que saibas que me ponho de vassala diante de qualquer problema. Por fim, ao lembrar de ti, lembro-me sempre da frase da minha mãe quando te conheceu: "Essa menina vai longe – que garra!". Ela tem toda razão.

Recomendação da Semana
Pachebel Rant:
Nossa, esse vídeo fez minha semana. Achei GENIAL! Basicamente um comediante reclamando como é ruim tocar o Canon em D de Johann Pachelbel no Cello, mas simplesmente sensacional!

(Clarissa, querida, obrigada por me passar algo tão divertido – gostei tanto que resolvi repartir aqui no Hipóbole. Espero que não se incomodes. E por favor, sinta-se bem vinda para escrever qualquer parágrafo aqui pro blog (isso vale pra ti também, srta. Juliana))

Resolvi mudar a coluna (sim!) e mudar de frase da semana para música da semana. A bola da vez é, com toda certeza, "The Escapist", da minha eterna banda favorita Nightwish, que agora trocou a cantora e voltou com seu sexto álbum – o mais caro em toda história da Finlândia – Dark Passion Play. Eu, como qualquer fã chata, estou odiando e esperneando pela volta da Tarja. A esperança é a última que morre, não?
Aliás, falando em Finlândia e abastacendo-te de cultura inútil diária, hoje é dia de independência da Finlândia. Então, prepare seu CD do Sibelius e comemore com uma sauna!

Até próxima semana, espero!

domingo, 25 de novembro de 2007

Toda uma década no centro da cidade

O final do terceiro ano do ensino médio significa que está encerrado um ciclo de onze anos de nossas vidas. Levando em consideração que só temos dezessete e que uma teoria de Freud (lê-se fróide, Orei) diz que boa parte das memórias dos primeiros anos de vida logo se perde, esse ciclo está fortemente presente naquilo que chamamos lembranças. Alguns de nós nunca mais se verão, o que não significa que perderemos todas as amizades que cultivamos, mas que há uma tendência a manter contato apenas com os que eram mais próximos.
Mesmo que mantenhamos contato, teremos perdido a convivência a qual nos acostumamos. Foram várias as manhãs e tardes, de segunda a sábado que passamos no centro da cidade. E, quando digo no centro da cidade, não significa que visitamos os tão diversos sebos da região ou gastamos nosso tempo na Livraria da Travessa. Nem foi assistindo a um bom filme no Odeon ou jantando na Cinelândia que passamos os onze anos. Não foram tantas as vezes que fomos à Lapa ou assistimos a um show no Circo Voador que justificasse tanto tempo por aqui. CCBB, CCC, Casa França-Brasil, Palácio, tantos são os centros culturais e cinemas que poderíamos ter visitado; mas não, a área em que passamos nossas infância e adolescência fica ao lado da Marinha, perto da Candelária.
Esses onze anos no centro do Rio de Janeiro foram todos passados no topo do Morro de São Bento, ao lado de um mosteiro homônimo, num colégio de ensino fundamental e médio. A rotina foi, sim, maçante, mas nos acostumamos e sentiremos falta. O futebol no recreio, o almoço no bandejão, as animadas tardes de quarta-feira com dois tempos do Osni, enfim, são várias as coisas que não voltarão nunca. Mas tudo bem, logo esqueceremos de tudo isso, pois, como dizem alguns, pelo menos na Universidade tem mulher.

Seis semanas que passam

-25/11/2007-Uma semana para acabar o que foi, no sentido figurado, o ano de 2007. Tendo começado no dia 3 de fevereiro, mesmo que tenha durado apenas 10 meses, não tenho dúvidas de que foi meu mais longo ano. E o mais intenso. E o com mais mudanças. Soa dramático, talvez, mas valeu a pena. Me esforçarei para que o ano que vem, que começa para mim na outra segunda-feira, seja ainda mais intenso. E do jeito que as coisas andam nesses últimos trinta dias principalmente, tudo indica que será. Feliz ano novo, mesmo que antecipado, mesmo que simbólico, a todos vocês.
-O texto acima, devo admitir, não é original. Como já disse, o tempo tem sido curto. Não pensem, no entanto, que foi jogado aí para preencher espaço. Planejava já postá-lo nessa altura do ano. Por quê? Basicamente porque quarta-feira terei minha última aula no colégio em que passei onze anos, o São Bento. Sim, ONZE anos.
Originalmente foi escrito por mim, utilizando-me do ater-ego de João Sebastião Baldo, para a última edição do folhetim O Malho, que escrevemos, os alunos da turma 31, sobre o colégio. Mesmo que fosse uma revista crítica, qualquer um que lesse entenderia que somos uns dos que mais sentirão saudades do São Bento. Uma saudade hipócrita, é verdade. Mas ainda assim uma saudade.
Fica também como resposta para todos aqueles que me perguntaram, e sei que continuarão perguntando, a mesma coisa por tantos anos. Como é estudar no São Bento? Difícil de explicar; é tudo que tenho a dizer.

sábado, 24 de novembro de 2007

24 de Novembro de 2007

Não sei porque demorei tanto, – talvez pelo simbolismo do número 7, talvez uma hesitação puramente medrosa – mas resolvi escrever-te. Gostarias que soubesse que estou bem; que ainda tenho teu sorriso, teus olhos, teus trejeitos, tuas palavras e piadas, e teu nariz (e mamãe ainda me inveja por isso); que estou à beira de entrar na faculdade, mas continuo tua menina dos olhos, a caçula;
Desde aquele dia 25, o mundo mudou de forma drástica, nunca achei que iria agüentar a guinada – e de fato, não sei como agüentei. Incrível como me arrancou do meu mundinho e me mostrou que meus problemas eram insignificantes, minhas pirraças e discussões, supérfluas. Da minha inexperiência, pude ver que o universo é maior que eu esperava.
Espero ter sido a filha que sonhaste, com a vida que pediste a Deus, algo que valesse o sacrifício. Espero que esteja bem, com tudo que mereces e quiseres à disposição. Espero que agora se orgulhes de mim, pelos passos que dei, pela pessoa que me tornei. Espero que esteja cuidando de mim – de nós, na verdade – com teu pensamento, com sempre fazes.
Por fim, espero ainda ver teus olhos azuis e teu sorriso quando te perguntar se ainda sabes meu nome.

24 de Novembro de 2001

Uma rosa, nesse dia
Tão fraco, porém tão belo
Fruto da vil covardia,
Pelo que quebrou o elo

A rosa, desabrochada
Detalhe da mancha anil
Novembro vestido de Abril
Minha chaga escancarada

A rosa pelo meu mundo
Triste, trágico; e torto
Um pesadelo profundo
Que tirou todo conforto

A rosa murcha e partida
Deixo aqui, com minha vida

Genial! Ou não... (4ª edição)

Não sei se é surpresa para muitos eu estar postando aqui hoje, mas faço-o por um motivo nobre – uma coroa de louros merecida. Hoje, me restrinjo nesses meus pensamentos terrenos e volúveis, vou poupá-los disso; hoje é um dia demasiado especial.

Frase da semana: "Needed elsewhere, to remain us of the shortness of our kind"
(T. Holopainen, Nightwish; Angels Fall First)

Minha única recomendação da semana é um poeminha de Casimiro de Abreu, chamado "Segredos", que é um dos poemas mais bonitinhos que já li na minha nada longa vida.

Voltarei a postar na quinta na semana que vem, então até lá

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Possíveis explicações para a pós-vida

A pergunta é: O que será que acontece depois da morte? Todos a fazem, seja um pedreiro, seja um filósofo. Eu, particularmente, a faço antes de dormir, dedico uma boa parte daquele precioso tempo pensando no que vai me acontecer, mas esquecer de pensar em coisas que podem me acontecer em vida e que não vem ao caso agora...
Bom, depois de várias noites, três caminhos surgiram para mim. O primeiro me levou até o paraíso de alguma religião, qualquer religião, a idéia era de um lugar "perfeito", um vasto campo, com muitas árvores e pessoas de branco que caminhavam. Acho que fiquei com essa imagem formada na cabeça depois de ver uma novela da Globo, mas o que, na verdade, importa é que naquele lugar não existiam banheiros e as pessoas simplesmente andavam, por toda a eternidade, enquanto ouviam uma voz do alto, supostamente de Deus, que dizia coisas bonitas. Resumindo, um caminho direto para o tédio, sem vídeo-games, futebol ou comidas gordurosas, um mundo onde as angiospermas também reinavam.
Sem pensar muito, fui na direção do segundo caminho, quando me dei conto do que se tratava, tive uma grande a surpresa: Era o próprio vazio, o nada. Lá as pessoas simplesmente deixavam de existir, não lembrariam de tudo o que fizeram enquanto estavam na Terra, não lembrariam dos amores, nem das guerras, nem das aulas de química. Coloquei-me a pensar e vi que aquela situação não era nada justa, seriam anos jogados no lixo, e olha que eu até aceitaria esquecer os amores e muito mais as guerras, mas as aulas de química... Não perdi um ano inteiro para decorar que o anôdo é negativo na pilha e positivo na eletrólise à toa, não mesmo.
Foi aí então que corri para o terceiro caminho, esse parecia ser o mais o real e cruel ao mesmo tempo, nele descobri que a vida não passava de um grande Big Brother alienígena, fiquei envergonhado ao saber que todas as coisas que tinha feito só por achar que estava sozinho tinham sido observadas por alienígenas de todas as galáxias. Fiquei sabendo também que eu era só mais um robô e que logo, logo, seria encaminhado para aquele segundo caminho, o do vazio. Senti-me como Jim Carrey se sentiria se não recebesse um bom cachê por "O Show de Truman".
Agora percebo que estou vivo e que todos essas possíveis explicações para a pós-vida não passam de hipóteses, e mesmo que alguma delas seja a certa, todas me assustam. Não consigo imaginar o fim, nem a eternidade, nem o antes, nem o depois da vida. Dizem por aí que " A curiosidade matou o gato" e eu posso dizer que continuarei curioso para saber o que acontece com o pobre do gato.
Felipe Areias (do Blog Manifesto Metalúrgico)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Depois de duas semanas...

Depois de bastante tempo sem ver e ler meus amigos do Hipóbole, cá eu estou eu. Por motivos que vcs já sabem...provas de pré-vestibulares, provas do colégio e do técnico e trabalhos. Coisas que nos fazem deixar de viver para vegetar. Mas como eu disse a Luiza, luto bravamente pra não ser inundada na tal "responsabilidade". Deixo a vcs um texto que já estava pra ser feito há um bom tempo...saiu de um "ir à padaria ao domingo com minha mãe". E claro, peço permissão ao Kendo para postar em seu dia...Mas acho q ele não vai se importar tanto. Enfim...sem mais delongas, deixo o meu texto.
E o vida longa ao hipóbole!

Uma conversa a um...

Ele está sempre lá. Todos os domingos, religiosamente com sua bolsa cinza, ás 2 da tarde ele chega e senta no banquinho da praça. Parece calmo, mas entretido, viaja num pensamento profundo, que quem passa nem imagina os seus motivos.
Solidão a dois...Solidão a um...Solidão a si...Ele fica diante de uma árvore e o vento leve parece embalá-lo. Nesse momento qualquer tipo de cumplicidade é válido. Qualquer “respirar” do mundo já faz um domingo de alguém que como ele, se isola pra poder ouvir a si mesmo.
Um domingo de um estranho. De alguém que não conheço, mas está como se alguém o convidasse a conversar na pracinha perto de minha casa. Nada demais lá, além de bancos, mesinhas para jogadores de damas ou xadrez, algumas pedras no chão, as quais não podemos deixar de pisar até chegar de fato á praça. A praça é sem nome. Mas pra que nome, quando cada ser que existe nela já lhe dá o próprio sentido?Formigas, pássaros, borboletas, as árvores, gatos e ele.
Crianças brincam de vez em quando lá. São poucas as vezes que vejo uma. Geralmente estão com sua mãe (e claro) não desgrudam do balanço. Outras, com mais senso de peraltice, se aventuram na areia e nas pedras. Fazem casinhas e usam as pedras como personagens. Já terceiras preferem lidar com aquilo que é mais próximo a si, não abrem mão da vida dos outros. Correm atrás de borboletas e deixam formigas desordenadas com apenas um palitinho de sorvete. Pobres formigas!
Ele observa. Vai absorvendo tudo. Quem sabe o que fará quando chegar em casa? Terá uma mulher que o afague e lhe diga que o lanche das cinco está pronto? Ou um cão que o umedeça de carinho? Ou sentará em frente à televisão desligada e ficará a pensar? Pode ser que talvez não tenha móveis, eletrodomésticos e que o domingo na praça seja o seu cinema, sua novela, seu teatro ou sua música de Jobim. Quem sabe?...

domingo, 18 de novembro de 2007

Cinco semanas que passam

Pois é, como a Luíza disse em seu post de quinta-feira, essa semana foi foda.
Em ambos os sentidos.

Passamos a semana no tal do Onu jr.

Nenhum texto essa semana?
Pois é.

Quase que dedicação completa ao evento; e ainda caiu no período do final do vestibular.

Semana que vem volto a publicar um texto de verdade.

Até!

Obs: Uma pena que o quinquagésimo post tenha sido assim.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Moscou, 15 de dezembro de 1958

Desculpem-me, caros senhores leitores, mas por motivos de crise, não postarei nada além desse mísero texto que produzi no fim de semana. Nada mesmo.

Engraçado como as expectativas mudam um olhar. Fiz, hoje, domingo 11, assim como metade do Rio de Janeiro, mais uma prova de vestibular, longa e enfadonha. Acordei com sono pendente, parcialmente irritada com o mundo, fiz aquele famoso check-up, tomei um copo de leite e fui.
Para ser sincera, nunca objetivei a UFRJ, o pensamento sequer cruzara minha cabeça – nem em delírios profundos. Qual não foi minha surpresa em constatar a mudança radical do meu ponto de vista ao cruzar os gloriosos portões do campus da Praia Vermelha.
Prédios altos e majestosos marcavam a melhor da arquitetura neo-colonial, romanceados pelo jardim cuidadosamente mal cuidado, com aquela personalidade rebelde. O cenário remetia-me aos tempos da Rua de Matacavalos, o sobrado de Carolina – cave canem.
O mundo de sépia e da nostalgia, porém, passou ao Realismo mais que rapidamente quando entrei num dos prédios – a faculdade de educação, por mais irônico que isso soe. Por mais que o véu da antigüidade estivesse me seduzindo, não pude deixar de notar os maus tratos desmerecidos do local e sua adaptação grosseira ao século XX – lâmpadas fluorescentes esdrúxulas e meio quadro branco mal apagado, alem das decadentes carteiras de madeira podre.
A fascinação se fora; amaldiçoei o poder público pela heresia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Memórias Póstumas da Presa Fácil

Estava em um clube do centro. Ouvia os ruídos em volta, sentia o forte odor de bebida misturado com fedor de colônias baratas. Ria das piadas infames e me divertia na mesa de sinuca. As luzes indiretas e a fumaça dos cigarros davam um ar noir ao bar. Era uma noite como qualquer outra.
De longe, avistei uma mulher de longos olhares que assoprava a fumaça lentamente. Tinha cabelos negros de brilho azulado, pele de cor marfim colorida e olhos de colorido roxo. Tentadora. Encarava-me como um predador que olhava para sua presa. Tentadora. Como uma mosca que se aproxima da luz, dirigi-me até ela inconscientemente. Simplesmente me atraía. Quando me dei conta, já estava soltando qualquer cantada e risadas fáceis. Mas não conseguia escutar uma palavra que dissesse. Apenas me concentrava nos lábios que tão carinhosamente buscavam o cigarro e no som abafado da música. Ofereci um drink que, nem um pouco surpreendentemente, aceitou. Podia ver o brilho em seu olhar, o sorriso decorando seu rosto, a procura pela satisfação. Sabia que já era jogo ganho. Essa seria uma noite como qualquer outra.
Convidei-a para dançar e não tardou para estarmos aos beijos. Quando beijava, beijava com força e com raiva. Como se fosse me comer. Podia sentia o calor de nossos corpos abraçados. Beijava-me como se fosse me engolir. Sua boca tinha gosto de tabaco, mas suas mãos eram finas e delicadas. Os dedos longos traçavam seu caminho na superfície do meu rosto e no emaranhado de meus cabelos. Sabia que era jogo ganho e levei-a para o motel.
No caminho, resolvi tomar o controle. Cada centímetro de pele exposta me dava uma sensação de fervor. Não podia parar de notar no seu decote, que tão facilmente chegava ao alcance de meus olhos. Enquanto dirigia, entoava palavras e histórias que a divertia. Nunca tive dificuldades com mulheres. Dê-lhes o luxo da beleza, faça-as achar que possuem a vantagem do controle, inebrie-as com a desinibição do álcool e domine-as com o prazer do sexo. Incomodava-me, somente, as infindáveis tragadas. Não pelo cigarro em si – não, não possuía nenhum efeito em mim-, mas pelo molde que dava aos seus lábios. Disse que não me importaria mais tarde enquanto subia sua mão vagarosamente pela minha coxa. O efeito foi imediato: podia sentir o fervor nas partes mais íntimas e o desejo na flor da pele.
Quando chegamos, impressionou-me a ferocidade com a qual me despia. Seu corpo não passava de um vulto na escuridão. Tocava-a, mas não a sentia. Sua superfície estava molhada de suor frio. Seus gestos eram ensaiados e frios. Mas seu corpo expelia um calor tão intenso. Depois, os beijos viraram mordidas e os toques, arranhões. Se antes se movimentava brutalmente, como um animal que se soltara de sua jaula, depois passava a mover-se lentamente na velocidade de suas tragadas. Se em determinado momento parecia calculista e caprichosa, no outro, soltava faíscas pelos olhos raivosos. Virara uma dança, onde mudávamos de posição como quem muda de ritmo. Ela conduzia e eu fazia meu melhor para acompanhá-la. Transformou-me em um virgem, usou-me como bem lhe entendeu para somente gozar do meu prazer. Arrancou em cada suspiro e em cada gemido todas as minhas energias. Extasiado, fui dormir.
Acordei com um clique. De pé, já vestida com seu longo sobretudo e luvas pretas, dava as costas para mim. Podia sentir sua respiração pesada. Levantou a cabeça enquanto preparava a arma. Puxou seus cabelos para trás e olhou-me pelo canto do olho. Seu sorriso era inexplicável. Sua expressão era orgástica e seu olhar passou a ser gélido. Era uma besta feroz. Uma besta de calibre e silenciador. O cano negro de sua arma arrancou toda a cor do meu rosto. Já não conseguia mais pensar. Fui tomado por um desespero e por uma sensação de impotência desumana. Era a carniça e só agora tinha tomado consciência disso. Fui vítima de uma deusa com fetiches macabros. Femme Fatale. Implorava pela minha vida enquanto me acuava como um cachorro assustado.
De repente, o estouro abafado. Não houve túnel. Não houve luz. Nem céu nem inferno. Havia somente nós três: eu, o monstro e a minha insignificância.

Clarissa Maria, do blog Testículos Literários

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Metafísico

Ainda hei de entender
Esse negócio de Karma
Fundação milenar
Que Kant facilmente desarma
Como algo tão subjetivo
Como os conceitos do bem e do mal
Pode trazer resultado tão objetivo
Doença, falência, acidente fatal
Para quem não conhece
Irei explicar, acompanhe:
Se você faz algo bom
Algo que a sociedade considere de bom tom
Receberá os frutos, aos montes
Se fizer algo ruim
Roubar, matar, julgar, enfim
Pagará na carne, tudo o que fizera antes
Provavelmente essa idéia foi criada
Por um jovem hindu, de cabeça meditada
Achou tão genial, a iluminação que havia tido
Que na idéia não viu o real sentido
O que o jovem hindu não sabia, e agora vou explicar
É como Immanuel Kant, jogou seu conceito pro ar
Que pobre do garoto que não enxergou o fato
De que toda moeda, tem seu outro lado
O homem divide igualmente, seu último alimento com a família
Condenar tal ação, seria tamanha heresia
Talvez um e somente um homem possa condená-la
O padeiro, que reclamando do pão roubado
Pela situação comovente não se abala
Você pode tentar defender, o pai ladrão de pão
’’Ele roubou por necessidade o que vale é a intenção’’
Bela frase, mas rebato sem receio:
’’De boa intenção o inferno tá cheio’’
Idéia cruel, mas veja por outro lado
Afinal as más ações também tem seu valor
Um homem avança o sinal, e mata o outro achatado
A ação parece errada, se não fosse por um fator
O atropelado poderia ser um agiota
Que da família daquele ladrão
Havia extorquido, roubado, fizera a todos de idiota
Algo que respeito, creio com total razão
É a idéia de Kant, e sua ética universal
Desbancou com categoria, Aristóteles e Platão
Julgando a vida muito além do bem e do mal.